O DISCURSO ANTIGÊNERO E A NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL NAS ESCOLAS

Autores

  • Thais Gava Fundação Carlos Chagas - FCC
  • Cláudia Pereira Vianna Universidade de São Paulo - USP

DOI:

https://doi.org/10.34024/olhares.2024.v12.15721

Palavras-chave:

Gênero, Educação Escolar, Perseguição

Resumo

O discurso antigênero mobiliza diversos grupos sociais para a manutenção da ordem vigente, fundamentada em uma moralidade social, política e individual pautada na centralidade da família como núcleo social, na qual homens e mulheres apresentam papéis preestabelecidos e fixos com base na heterossexualidade. No Brasil, esse discurso ganhou corpo nos últimos anos com a utilização da “ideologia de gênero” como retórica para o questionamento e a produção de políticas públicas, particularmente as educacionais. A materialização do discurso antigênero nas escolas deu-se, em grande parte, por meio de denúncias, via notificação extrajudicial, documento que não tem validade jurídica, mas tem valor simbólico utilizado para coerção e ameaça relacionadas ao trabalho com as temáticas de gênero, raça e diversidade sexual. Com base nos resultados de pesquisas realizadas em duas escolas denunciadas, o presente artigo compreende o processo de elaboração das denúncias de gênero como uma biografia capaz de explorar as denúncias de gênero para além da notificação em si mesma, mas como uma disputa pelos sentidos do trabalho realizado na escola. Assim, uma das principais contribuições dessa reflexão é o fato de que as denúncias não propõem, necessariamente, a interrupção da discussão sobre gênero em si, mas a manutenção da visão hegemônica, baseada no binarismo e na ordem essencialista das percepções sobre as diferenças sexuais, com complexas consequências para o ambiente escolar. 

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Biografia do Autor

Thais Gava, Fundação Carlos Chagas - FCC

Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (2023). Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de São Paulo (2013) e graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Pesquisadora pela Fundação Carlos Chagas nos temas de gênero, sexualidade, direitos sexuais e reprodutivos e suas interlocuções com a Educação.

Cláudia Pereira Vianna, Universidade de São Paulo - USP

Doutora em Educação e professora Sênior do Programa de Pós-Graduação em Educação na Faculdade de Educação da USP. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Coordenadora, com Marília Pinto de Carvalho, do grupo de pesquisa e Estudos de Gênero, Educação e cultura Sexual (EdGES) com pesquisas na área de educação, relações de gênero e diversidade sexual.

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Publicado

2024-04-30

Edição

Seção

SEÇÃO TEMÁTICA: A educação em disputa: Gênero, cruzadas e formas de resistência